Catarinalândia


Bem-vindos ao Reino do rock'n'roll, filmes e televisão, governado por Catarina, a Grande, déspota esclarecida e benevolente! *Agora em Austin-TX*

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Domingo, Fevereiro 26, 2006


AUSTIN CITY UNLIMITED, R.E.M., AND LOTS OF MEMORIES

Minha jornada em Austin-TX acabou há um mês, mas minhas atualizações do blog acabaram-se muito antes. Acho que esse esgotamento acontece com muito blogueiro após um tempo. Mas acredito também que eu deixei o blog às moscas porque certas coisas deixaram de ser novidade. Uma das razões que me fizeram abrir um blog e continuar atualizando foi a vontade de apontar as novidades, ou um jeito novo (pra mim) de ver as coisas.

Quando ganhei minha bolsa para os EUA, pensei: vai ter atualização quase todo dia! Só vai ter coisa nova pra ver...e é verdade. Mas não contava com a falta de tempo para sentar e escrever, nem pra mim mesma. Preferi registrar tudo em fotos, para não esquecer os momentos maravilhosos dessa cidade excepcional que é Austin. Outro fator importante para ter me feito praticamente abandonar o blog foi que gostei tanto de Austin, que acabei me transformando numa Austinite, numa cidadã da capital do Texas. Ainda que cada dia me trouxesse um céu lindo e um sem número de novos aprendizados, eu fui me harmonizando cada vez mais com Austin, com a Universidade do Texas e com tudo o que existe de bom e de ruim com essa cidade.


Na mala trouxe quilos de material de pesquisa, algumas lembrancinhas Longhorn, canequinhas com chifrinhos de boi, camisetas da UT, e memórias, vocabulários, sons, e ícones do cotidiano americano. Trago meu sotaque quase texano e minha admiração por todas as lendas e histórias sobre o Texas, mesmo sabendo que todas as identidades culturais são construídas. Trago meu apreço pela cordialidade e pela educação com que fui recebida e tratada, seja em ônibus, supermercados ou conferências. Trago uma imensa gratidão por inúmeras pessoas que me ajudaram e que mostraram que ninguém vive sozinho.


Trago um pedaço de Austin cada vez que ouço The Outsiders, do R.E.M., música que eu ouvia quase religiosamente quando voltava pra casa, no cair da tarde, passando de shuttle pelo Capital State of Texas, pelo prédio do Frost Bank, pela Torre da UT, pela 6th, pelo Whole Foods. Não nos esqueçamos que o R.E.M. também é do sul, de Athens-Geórgia, e que the Outsiders cita Martin Luther King Jr no seu último sermão, em que diz não ter medo pois havia subido na montanha e visto a glória de Deus.

Trago outro pedaço quando ouço Red Sector A, Dreamline, Subdivisions do Rush quando pegava o city bus da rota 21 ou da rota 22 pra ir pra UT ou voltar pra casa. Trago o sol do Texas and its big skies, e todas as caminhadas na quilométrica avenida Guadalupe (que se pronuncia guuuadalup). Trago todos os papos que puxei com estranhos que viraram conhecidos, vizinhos e colegas; trago o canto medonho dos grackles e os pulinhos dos esquilos; trago a brisa que a fonte na frente da LBJ Museum trazia todo dia na hora do almoço. Trago o chapéu de caubói, o Bob Bullock Museum, que tinha uma grande estrela solitária na sua frente, no cruzamento da Martin Luther King Jr e da Congress avenue. Trago a visão dos homens de costeleda e bigodão que andavam de chapéu e calça jeans.



Trago o verde, o vermelho e o laranja das árvores de Austin, que se desnudavam a cada dia à medida que o inverno avançava. Trago os variados gostos de café que eu bebia aos baldes, com cream, canela, chocolate em pó e stevia, no Java City ao lado da Perry Castañeda Library, no Java City perto do Texas Union, no Matisse do Dobie Mall ou no Einstein Bros. Bagels. Trago minhas luvinhas pretas, que andaram comigo praticamente todos os dias do outono e inverno, ainda que não fizesse tanto frio assim. Trago a KLBJ ¿ Austin¿s Classic Rock, e todos os 80 canais a cabo a que tinha disposição de graça. As previsões do tempo que traziam até a contagem dos alérgenos no ar e a evolução da temperatura ao longo do dia; a Fox News, the King of the Hill, luta livre, filme mudo todo domingo à noite na TCM (Turner Classic Movies), Netflix, Três Patetas, The 700 club, Joel Osteen, Bibleman, os comerciais engraçadinhos da Geico; também trago tudo, mas ainda tem mais espaço.

Trago na memória digestiva os veggieburgers, o breakfest tacos, enchilladas de frango, a lazanha de tofu da Bethany, o peru com molho de cranberry do Thanksgiving, os cookies de Natal, panquecas e waffles com xarope de mapple, o pão tostado com peanut butter and jelly (não me admira minhas calças não me servirem mais...). Trago a generosidade daqueles que me pagaram almoço no Red Lobster, no Luby¿s e no Ruby¿s. Trago o agradecimento pela Bethany ter me levado pra provar a comida sulista do restaurante onde a Janis Joplin se lançou, o Threadgill¿s, e por ter andado comigo pra lá e pra cá, com toda paciência e gentileza, mostrando-me a cidade que nunca parece ter descanso. Trago o agradecimento pela Carla e pelo Leonardo, por tudo o que fizeram e pelo sotaque gaúcho com que me presentearam após seis meses de convivência.

Trago os calinhos das minhas andanças pela UT, onde, de tanto me perder, acabei ganhando um bronze debaixo de um calor de 40 graus. Trago muitas histórias engraçadas de desencontros e de encontros, coincidências e God-incidences. Lições de vida e amizades que torço para durem pra sempre. Trago a sensação de liberdade e de ser uma só com as ruas largas e os prédios gigantescos, cada qual trazendo um chifrinho, um longhorn, para me fazer lembrar que eu também sou de Touro. Everything is bigger in Texas, e o meu coração ficou as big as Texas.



É necessário saber partir, e não estou suspirando pelos cantos por todas essas memórias. Na verdade, eu estava era doida pra voltar, pra completar minhas tarefas no Brasil, comer arroz e feijão, dormir na minha cama. É certo que a minha cidade aqui não é tão bonita quanto a beleza cinematográfica de Austin, nem tão limpa, nem tão bem cuidada, ou querida. Só gostaria que aqui fosse um pouquinho melhor, um pouquinho mais bonito, mais ordenado, menos avacalhado, menos triste e sofrido, menos caro, mais próspero pra mais gente. Queria também que Austin fosse aqui do lado, para eu poder sempre matar as saudades dos amigos e dos lugares.

Se esse é o fim do blog, eu não sei. Só sei que eu precisava fechar essa página oficialmente, dizer à Blogolândia que there¿s no place like home. E que home is where the heart is.

See y¿all!







Súditos que beijaram a mão da Rainha:



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